Autonomia e transformação - Paula Coraline, Diacrítico

Assim como os tecidos são utilizados para envolver o corpo, na produção artística de Mônica Lóss eles são explorados para abraçar representações de elementos naturais, do universo feminino ou de construções diárias. Sejam com estruturas delicadas ou com aquelas que parecem excêntricas ao olhar, as obras da artista realizam um constante convite à proximidade e ao aconchego, criando espaços de refúgio e respiro.

Em um corpo de trabalho extenso e meticuloso, há obras emblemáticas, que sintetizam com clareza a pesquisa da artista. É o caso de “Enredos”, um livro de artista delicadamente construído com costuras, tecidos e papel vegetal. Há nele a presença de elementos que despontam fortemente em outros trabalhos da artista, como o gestual, o corpo, o ato de fazer, bem como a presença das costuras e dos materiais têxteis. Esses materiais são utilizados para alinhavar uma narrativa potencializadora de espaços, atravessamentos e reminiscências. Além disso, o tempo aparece como um componente importante para os processos artísticos de Mônica, já que o livro foi pensado e construído durante cinco anos.

As formas orgânicas das obras evocam elementos naturais, como em “Coisas Estranhas Crescem Aqui”; neste trabalho, as cores terrosas e pequenos detalhes em amarelo recordam a sensação de terras úmidas e férteis, propícias ao desenvolvimento de pequenas criaturas que passam despercebidas. A versatilidade da artista em explorar o estado natural das coisas transparece também em “Deshechos”, em que a quebra ocasional de uma taça  se torna um objeto de investigação fotográfica, explorando a beleza da transparência do vidro em contraste com a opacidade do vinho. Ambos trabalhos propõem novos olhares e considerações sobre situações e materiais. 

Cada obra de Mônica Lóss carrega em si um senso de autonomia e uma forte capacidade de transformação. A série “Nomad[as]” é um ótimo exemplo destas características, uma vez que as peças assumem diferentes formas a cada nova montagem. Não é por acaso que o nome desta obra está no feminino: renovação e independência são aspectos muito comuns a este universo. Em “Colunas”, a estrutura tecida com linhas e fios remete a um esqueleto vertebral, preenchido com uniões e cores delicadas que gentilmente sugerem uma  conexão com o sistema reprodutor feminino. A sensação proporcionada é de um espaço de conforto e refúgio, tema comum na pesquisa da artista.

A pesquisa em torno do gestual tem se tornado cada vez mais presente na trajetória recente de Mônica Lóss, despontando em trabalhos que são norteados por essa ação. Em “O Medo de Sentir Medo”, a artista se posiciona em frente a câmera para realizar uma foto performance, registrando imagens que sugerem reclusão, insegurança ou recusa. Não poderia ser diferente, uma vez que este trabalho foi concebido no primeiro momento de isolamento social durante a pandemia de Covid-19, em que a humanidade foi obrigada a encarar um abismo. 

Ao considerar a produção de Mônica Lóss como um corpo de trabalho, nota-se que ele possui o inacabamento comum dos seres viventes, capaz de propiciar o espaço necessário para a expansão e o crescimento. Mutável em sua sutileza, ele realiza o convite de voltar o olhar para aquilo que delicadamente foge à atenção, seja em termos físicos ou emocionais.

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